sábado, 21 de janeiro de 2017

A menina que falou a verdade

Uma vez, há muito tempo, uma linda menina brincava com tranqüilidade que tão bem caracteriza o espírito infantil. Sua mãe, da janela onde tecia um tapete, vigiava com indizível ternura seu rico tesouro ao qual dedicava tanto amor! De repente, ao longe, nuvens de poeira levantavam-se como que anunciando a chegada de apressados visitantes. O olhar calmo e meigo, da mãe bondosa, tornou-se aflito quando divisou tropas de estrangeiros dominadores de sua raça.

- Ó filha, esconde-te – diz a mãe. Avisarei teu pai que os soldados estrangeiros se aproximam. Que desejarão eles, agora? E, tomada de aflição e medo, entrou à procura do marido.


Enquanto isto, a pequenina de olhos pretos, bem pretos e brilhantes, hesitava entre o desejo de esconder-se e a curiosidade de ver de perto soldados uniformizados e tão estranhos. A curiosidade venceu-a e ali se quedou, sozinha, com olhar inquirido. Foi então que o mais importante dentre os soldados viu-a ali e, achegando-se a ela, disse:


- Não me temes, pequena?


- Não, meu senhor. O meu Deus sempre cuida de mim.


- O teu Deus, menina? Confias, então, muito, n’Ele?


- Oh, muito, meu senhor. Ele nunca deixou de atender-me.


A esta altura, a mãe pressurosa corre à porta e depara a filha entre os soldados. Bruscamente agarra-a, tentando levá-la consigo. – Mulher, diz-lhe o chefe dos exércitos estrangeiros, és nossa escrava, tu e toda a tua raça. Permitirás que eu leve tua gentil e corajosa filha para companheira de minha esposa?


A pobre mãe, aturdida com a pergunta, afasta-se com lentidão, estampando na face grande amargura. Não tinha dúvidas que não lhe seria permitido negar sua filha, uma escravazinha, para o serviço de uma nobre e ilustre dama estrangeira. Preparou a roupa da pequena e os três, ajoelhados na humildade daquela casa pobre, mostraram a riqueza que possuíam – a fé em um Deus verdadeiro que os ouvia e consolava. Levantaram-se tranqüilos, embora tristes pela separação, e ajudaram a pequenina a partir em um dos carros daquele exército.


Agora, numa casa rica, andava a menina, ora a varrer todos os cantinhos daquelas salas esplendorosas, não deixando nem o cisco ficar sob os fofos tapetes; ora a procurar belas flores para adornar o lar de seus bondosos senhores. Ela soubera fazer-se querida pela maneira franca de falar só a verdade, pelo modo cuidadoso com que realizava suas tarefas.


Um dia seus senhores estavam muito tristes. Não havia médico que proporcionasse a cura de seu senhor que era um grande general em sua terra. A menina amava-o e respeitava-o. Lembrou-se então de enviá-lo a um grande homem que poderia curá-lo. O general não hesitou em atender à sugestão da escravazinha. Procurou, com incontida ansiedade, esse grande homem do qual ela lhe falara. Foi realmente curado de uma moléstia julgada por todos incurável! Voltou com o coração a transbordar de alegria por conhecer também uma pequena que sempre falava a verdade, só à verdade!



Amor Suficiente para Todos


Ricardo podia ouvir o vento frio soprando lá fora e se sentiu muito alegre por ter uma casa confortável e quentinha. Ele estava observando sua mãe descascando maçãs para fazer um doce, enquanto alisava seu cachorrinho de estimação que já estava quase dormindo.
A mamãe, com todo cuidado tirava a fina casca das maçãs. A casca se enrolava, enquanto sua faca dava voltas ao redor da maçã. Sua irmã, Sandra, estava bem perto da mamãe, pegando as cascas antes que tocassem na panela.
- Eu também quero fazer isto – disse Ricardo, enquanto chegava mais perto da mamãe. – A próxima casca é minha, não é, mãe?
- Há cascas suficientes para os dois – disse a mãe – e acho que ainda vai sobrar. – E ela sorriu para Ricardo.
O sorriso da mamãe fez com que Ricardo ficasse muito satisfeito. Ele olhou para ela e sorriu também, e notou que a mamãe estava sorrindo para Sandra.
Neste momento uma casca de maçã caiu no chão, e Muchinga, a gatinha, pulou em cima dela.
- Ó, Muchinga, você é muito malandra! Disse Ricardo se divertindo, vendo como ela jogava a casca. – Você quer brincar, não é? Está bem, então venha aqui que eu vou brincar com você.
Ricardo foi até a sala e encontrou o brinquedo especial e preferido da gatinha, uma longa fita com uma pequena bola vermelha amarrada na ponta. Ele corria ao redor da sala puxando fita, enquanto Muchinga procurava caçar a bolinha.
- Grrr! – resmungou Tuty, o cachorrinho, correndo e tentando agarrar a bola. Ele havia acabado de acordar e queria entrar na brincadeira. Mas, Muchinga não gostou da história, levantou suas costas e seu pêlo, e... arranhou o Tuty. Este por sua vez, latiu, latiu e deu uma patada em Muchinga.
- Que aconteceu. Venham aqui vocês dois – disse Ricardo, sentando entre eles e gentilmente agradando cada um. – Não se preocupem. Nós podemos brincar todos juntos. Eu gosto de cada um da mesma maneira.
Pouco tempo depois tanto o cachorrinho quanto à gatinha, estavam dormindo, e Ricardo voltou para a cozinha. Sandra continuava ajudando a mãe a colocar as maçãs numa panela grande.
- Eu quero fazer isso – disse Ricardo, tentando alcançar a panela.
- Há lugar suficiente para os dois, e muitas maçãs também – disse a mãe. E desta maneira Ricardo e Sandra se revezavam ajudando até que a panela estava bem cheia.
Quando as maçãs estavam fervendo em cima do fogo, Ricardo olhou para a mamãe e perguntou:
- De quem você gosta mais, mãe, de Sandra ou de mim?
Ele esperou ansioso pela resposta. Sandra ouviu o que Ricardo tinha perguntado, e veio para perto para ouvir o que a mamãe iria responder.
Ricardo ficou muito surpreso pelo que a mãe fez então. Ela sorriu, sentou-se, e colocou um braço ao redor de Ricardo e o outro braço ao redor de Sandra.
- Ricardo – ela disse – eu vi você brincando com seu gatinho e com o seu cachorrinho.
De qual dos dois você gosta mais?
- Oh, gato e cachorro são diferentes – respondeu Ricardo. – A gatinha é branca e macia, tem lindos olhos azuis. Tuty é todo crespinho e preto, e tem um nariz comprido e bonito. Eu não gosto mais de um do que do outro.
- Bem – disse a mãe – Sandra é uma menina, com longos cabelos e olhos escuros. Você é um menino, tem cabelos curtos e olhos azuis. Vocês são ambos meus filhos, e eu amo a cada um da mesma maneira. Tenho amor suficiente para os dois, e ainda tem mais amor sobrando.
Ricardo se sentiu muito bem ao ouvir isto. Sandra também estava sorrindo.
- E sabem – acrescentou a mamãe – Deus nos ama da mesma maneira também. Ele tem muito amor por cada pessoa neste mundo.
- Assim como maçãs – riu Ricardo. – Suficiente para todos, e algumas de sobra.
Deus nos ama muito mesmo – ama a cada um de nós. Vamos lhe dizer “Muito Obrigado” por nos amar tanto e por ter feito um mundo tão maravilhoso onde podemos viver.


O Custo de uma Desobediência


Era uma vez dois meninos muito bons amigos. Chamavam-se João e Santiago, e como estavam sempre juntos, assistiam ambos a uma escola situada no cume de uma colina.
Próximo dos terrenos para brinquedos da escola havia um extenso terreno baldio onde tinham sido realizadas escavações para certas minas. Foram descobertos minérios valiosos a uma grande profundidade, e tiradas muitas pedras para a superfície para passá-las pelas máquinas que separavam o minério das escórias.
Os mineiros trabalharam nisto durante muito tempo, até que finalmente não havia mais minério e o trabalho terminou. Foram tiradas todas as ferramentas dos poços e das galerias subterrâneas, e a maquinaria foi levada para onde havia novas minas. A água começou a encher os túneis, uma vez que foram tiradas as bombas. As chuvas também contribuíram para encher os poços, até que a água quase chegou à superfície.
Uma ordem muito severa da escola era que nenhum menino devia pisar nesses terrenos.
Numa tarde, depois que terminaram as aulas, ocorreu a Santiago uma idéia que lhe pareceu brilhante. Para a maioria das crianças, há prazer na variação de suas atividades, de modo que Santiago disse a seu amigo:
- Joãozinho, vamos tomar um caminho de atalho para nossa casa.
Joãozinho pensou que isso seria interessante, e o acompanhou. O caminho do atalho passava pelo terreno onde haviam trabalhado os mineiros, porém os meninos esqueceram-se do regulamento da escola.

Foi muito divertido ir para casa por um caminho diferente. Santiago escondeu-se atrás de um montão de pedras, e Joãozinho tratou de procurá-lo. Logo pararam para examinar o que havia ao redor de um velho poço. Jogaram pedras ao seu interior para ouvir como golpeavam contra a água.
Mais adiante viram um despenhadeiro e um lugar bastante bom para nadar, porém fazia frio. Fizeram esforço para subir a um grande montão de escórias de cujo cume podia ser vista grande parte da cidade e até os campos de muito longe.
Outra tarde os meninos detiveram-se para brincar ao redor de um poço.
Santiago correu até muito perto da boca, tropeçou e caiu de cabeça nas águas turvas. Quando voltou à superfície procurou agarrar-se a madeiras podres que flutuavam no pólo. João não podia alcançar o seu amigo com a mão e não tinha corda para jogar-lhe. Gritou-lhe que ia, em busca de auxílio, e saiu correndo.
Alguém chamou pelo telefone o corpo de bombeiros. Imediatamente chegaram os caminhões com suas sirenas; veio também o grande caminhão com escadas. Joãozinho indicou aos homens onde tinha caído Santiago, porém agora não podia ser visto.
Os homens começaram a usar cordas e ganchos para tirar o menino.
Logo se espalhou pelo povoado a notícia de que havia acontecido um acidente, e vieram mineiros de todas as partes para ajudarem a procurar. Chegou a noite, mas os homens, com o auxílio de algumas pequenas luzes, continuaram trabalhando, ainda que sem resultado.
No dia seguinte outros homens estenderam cabos para as luzes elétricas e a força do motor. Foram instaladas duas grandes bombas, que imediatamente começaram a funcionar, tirando milhares de litros de água que lançavam em um ribeiro ao pé da colina.
Lentamente foi baixando a água do poço. No interior deste foi construído um andaime para que os homens pudessem trabalhar melhor. Passaram-se vários dias.
As grandes bombas continuavam funcionando, e os homens lutavam dia e noite.
Bem no fundo do poço foi encontrado o corpo do menino. Tiraram-no imediatamente, levaram-no para uma ambulância que esperava, porém era demasiado tarde. Este caso triste mostra-nos que os meninos devem atender ao conselho de seus pais e professores e obedecer-lhes sempre.

Perdidos



A senhora Barbosa estava muito admirada...
Mais alguns longos minutos se passaram e então Lauro falou:
- Não estamos adiantando caminho, mamãe. Estamos perdidos. Aqui está o velho tronco de novo. Com esta são três vezes que passamos por aqui. Estamos fazendo círculos. Eu não quis dizer isso antes porque não queria atemorizá-la. Mas creio que precisamos parar.
- Eu sabia que estávamos perdidos, disse Janete. Notei que havíamos passado por aqui, por este velho tronco, já duas vezes. Que caminho tomará agora?
- Sim, eu estava certa de que estávamos perdidos, mas julgava que pudéssemos atravessar este capão se continuássemos, retrucou a Sra. Barbosa. Estou muito preocupada!
- Mamãe, aventurou Lauro, com expressões de esperança. A senhora se recorda da história que nos contou na semana passada, do missionário que estava perdido e orou a Deus pedindo que o ajudasse a encontrar o caminho? A senhora contou que ele assim que acabou de orar começou a andar e encontrou o caminho. Deus o ajudou.

Vamos orar nós também?
E assim os três se ajoelharam e cada um fez uma curta oração, pedindo a Deus que os ajudasse a achar o caminho.
Acabaram de orar e já era escuro. Lauro segurou a mão da mãe e a da irmãzinha e começaram a andar, por entre os arbustos e macegas daquele capão escuro.
Não haviam andado muito quando Lauro exclamou, cheio de satisfação:
- Olhem lá uma luz!
- Mas não é nenhuma casa, respondeu a mãe, pois não há moradores aqui por perto. Deve ser alguém, andando. Vamos ver se o alcançamos.
- A lanterna está balançando e não sai do lugar. Vamos ligeiro até ela, disse Lauro.
Quando chegaram bem perto da luz puderam observar que se tratava de três homens que estavam de passagem. Haviam parado ao ouvir vozes.
- Podem dizer-nos onde estamos? Perguntou a Sra. Barbosa.
Os homens explicaram onde se encontravam e ofereceram-se para guiá-los até a estrada. Quando chegaram ao caminho reconheceram-no e rumaram para casa. Andaram um pouco mais no escuro e logo avistaram a luz de casa.
- Espero que vovô tenha deixado alguma comida quente para nós, disse Janete, que sentia bastante fome, agora que passara todo o temor.
- É mesmo, pois estou até fraco de fome, respondeu Lauro.
- Para mim, o melhor é poder ver nossa casinha já bem perto, falou a Sra. Barbosa.
- Estivemos perdidos, vovô, disse Janete assim que entrou em casa.
- Eu estava mesmo imaginando, respondeu o avô. E continuou: vocês devem ter ficado até muito tarde na roça!
- É verdade, concordou a Sra. Barbosa.
- Mas, vovô, nós oramos e Deus nos ajudou a achar caminho. Não foi bom termos orado? Perguntou Janete.
- Orar é sempre uma boa coisa, queridinha. Deus sempre nos mostra o caminho de casa. E não somente o caminho desta casa, mas o caminho do lar celestial, respondeu o avô, em tom amorável de voz grave, ao mesmo tempo em que punha sobre a mesa o alimento quentinho e cheiroso.